
bCidadão Kane: História e Análise de um dos maiores filmes de todos os tempos
Por Diego Rodrigues Araújo
Foi há quase 70 anos atrás. Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a indústria cinematográfica cresceu em ritmo alucinante, impulsionada pela máquina de propaganda norte-americana. Hollywood firmou-se como o grande centro produtor mundial de cultura de massa, numa época em que já haviam se estabelecido os primeiros grandes conglomerados da comunicação. Nesse contexto histórico, deu-se a assinatura de um contrato ousado, até então sem precedentes no meio do cinema, firmado entre um dos maiores estúdios existentes, o RKO, e um jovem e promissor comunicador de apenas 24 anos de idade, que nunca houvera realizado um único filme: Orson Welles.
O jovem Welles havia ganhado certa notoriedade, inicialmente devido a seu trabalho no teatro – suas adaptações de Shakespeare são consideradas algumas das melhores já realizadas em solo americano – e, posteriormente, por causa de sua atuação no rádio, onde junto a seu grupo Mercury Theatre, encenou clássicos da literatura mundial. Mas foi em 30 de outubro de 1938, que ele tornou-se conhecido em todo o país, ao transmitir a famosa versão do romance “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, que narra a invasão da Terra por alienígenas do planeta Marte. A dramatização foi tão realista – encenando boletins jornalísticos, com relatos de testemunhas e autoridades em meio a súbitos ruídos e pausas na transmissão – que causou pânico generalizado em grande parte dos ouvintes, que acreditaram na veracidade da invasão. Foi uma contundente prova do poder dos meios de comunicação e a revelação de um talento criativo que Hollywood não poderia deixar escapar.

O acordo de Orson com a RKO lhe dava o direito de produzir dois filmes, com orçamento generoso e total liberdade criativa, ou seja: roteiro, elenco, equipe e edição final seriam completamente controlados pelo cineasta, sem interferências. No entanto, a idéia inicial tinha de ser aprovada pelo estúdio, antes de se dar inicio às gravações. Em 1940, dois projetos de Welles haviam sido recusados, e o cineasta via o tempo de seu contrato se esvair enquanto ainda não havia produzido seu primeiro filme. Foi quando concebeu, em cooperação com o roteirista Herman Mankiewicz, o enredo que usaria como sua “ás na manga”. Era a história de um magnata da imprensa, um ícone do sonho americano, que após uma vida inteira de busca incessante pelo poder, morre sozinho e triste.
O argumento de Cidadão Kane (que inicialmente receberia o título de American) foi em grande parte baseada na vida do milionário William Randolph Hearst, poderoso empresário do ramo das comunicações, que chegou a possuir 28 jornais (estima-se que um entre cada cinco americanos lia alguma de suas publicações regularmente) e foi considerado o pai da imprensa sensacionalista no continente americano. Ao ficar sabendo da produção do filme, Hearst ficou furioso com as referências explícitas à sua trajetória de vida. Ameaçou derrubar a RKO, dizendo que revelaria em seus jornais os escândalos envolvendo os figurões de Hollywood. A sua influência era tamanha, que os chefões da indústria cinematográfica ficaram amedrontados. Um grupo de donos de estúdio, liderados por Louis B. Mayer, do Metro, tentou até mesmo comprar as cópias prontas do filme com o propósito explícito de queimá-las, oferecendo ao diretor da RKO, George J. Schaefer, um valor que cobriria todo o custo de produção da obra. Hearst, é claro, também se utilizou de seu poderio de comunicação para atacar de todas as formas o filme, assim como a imagem pública de Welles.
Os esforços do magnata tiveram resultado. O filme foi exibido em pouquíssimas salas e, com público escasso, gerou prejuízo para a RKO. As nove indicações para o Oscar renderam somente uma estatueta, a de melhor roteiro original para Welles e Mankievicz. Tudo resultado de uma manobra de boicote perpetrada pela indústria cinematográfica, explicitada pelas vaias que acompanhavam o nome de Orson cada vez que este era citado nas indicações de melhor filme, diretor, ator e roteiro.
“O” Filme 
Toda a polêmica envolvendo a trajetória da produção e lançamento de Cidadão Kane, no entanto, não foram suficientes para ofuscar o brilho da obra, assim como sua fundamental importância para a história da sétima arte. Apesar de seu inicial fracasso comercial, a obra obteve reconhecimento internacional após o fim da guerra, sendo elevado, por cineastas e críticos americanos e europeus (como Peter Bogdanovich, André Bazin e Truffaut) à condição de um dos melhores filmes já produzidos. A eleição realizada a cada dez anos pelo British Film Institute, aponta-o, desde 1962, como o filme mais importante de todos os tempos. Mas por que Cidadão Kane é tão ovacionado?
Porque o filme de Welles rompeu barreiras técnicas e dramáticas, inaugurando o cinema moderno. A trama não é linear: a película se inicia com a morte de Charles Foster Kane, que sozinho em seu palácio particular pronuncia, em seu último suspiro, a palavra Rosebud. Esta se torna o ponto de referência da estória, quando um jornalista é incumbido de tentar descobrir o seu significado, buscando assim tentar entender a mentalidade do magnata. Nos contatos que o repórter tem com os conhecidos de Kane, o espectador é levado a acompanhar toda a vida do milionário, sempre pelo ponto de vista de terceiros, com visões conflitantes a respeito do protagonista. Os ocasionais saltos cronológicos não geram confusão no entendimento da narrativa, funcionando como a mente humana, criando conexões entre fatos e idéias.
Os ângulos utilizados e as técnicas de filmagem constituem-se em um importante recurso narrativo, revelando diferentes abordagens das situações e personagens, gerando uma rica representação simbólica. Por exemplo, Kane, nos seus momentos de poder e glória, é filmado de baixo para cima, o que acentua sua imponência e grandiosidade. Quando o objetivo é mostrar sua mesquinhez e amargor, a câmera se posiciona acima, como na cena em que o protagonista entra no salão onde sua esposa está montando um quebra-cabeça. Kane, nesse momento, apresenta-se como uma figura decrépita e triste em meio à imensidão do monumento que construiu para sua própria vaidade. O diretor também utiliza revolucionários recursos de foco (ora privilegiando o segundo plano da açãom utiliza recursos de focos, ora privilegiando o segundo plano da aç no sal situaçra citado nas indicaçaç ainda ntiva: roteiro,, ora o primeiro), profundidade e close. Em certos momentos há grandes tomadas sem corte, em outros a edição das imagens se dá em ritmo alucinante.
O potencial dramático do filme revela-se na grande atuação de Orson Welles, como o personagem-título da película, e principalmente na densa construção psicológica da figura de Kane. A sua trajetória, narrada pelas diferentes pessoas que com ele conviveram, nos revelam pistas e nuances sobre aquele moribundo que, no início do filme, sozinho em seu leito, compartilha unicamente com o espectador seu último e triste suspiro. Não há nenhuma testemunha no quarto que acompanhe sua derradeira palavra, e isso foi feito propositalmente pelo diretor, funcionando como um artifício para jogar o espectador dentro do filme.
Protótipo do “sonho americano”, Charles Foster Kane é um garoto pobre – aliás, um ponto de sua biografia que nos remete diretamente a Welles, e não a Hearst, sua fonte de inspiração – que herda uma fortuna e precisa abandonar sua família para ser criado por um banqueiro, que há de lhe ensinar a administrar os seus bens. Ao adquirir e revolucionar um pequeno e inexpressivo jornal, Kane vai construindo seu império da comunicação. Passa de jovem ousado e idealista a homem ambicioso, relacionando-se diretamente com as altas esferas do poder (parafraseando uma das falas do filme: “Em toda sua trajetória, não houve um presidente que Kane não apoiasse ou denunciasse. Geralmente primeiro apoiava, depois denunciava”).
A trajetória de Charles F. Kane é marcada por peculiares experiências. Seus conturbados relacionamentos, que sempre terminam de forma amarga e trágica. Suas excentricidades, como construir um palácio para si próprio, repleto de animais de todo o globo, monumentos e um número sem-fim de obras de arte, com o único objetivo de satisfazer seu ego. Sua desmedida ambição por poder e reconhecimento. Todos esses elementos culminam em momentos de profunda angústia, quando o personagem, subitamente, percebe que perdera a infância, e junto dela a possibilidade de ser amado por aquilo que é, e não pelo que possui. Por isso tenta construir, manipular ou adquirir algo que possa suprir essa necessidade voraz que lhe assola. Mas, no fundo, sabe que é tudo em vão. Ou como diria a seu (ex)amigo Leland: “Se não fosse tão rico, eu poderia ter sido um grande homem”.
Artigo de um grande amigo, diego. Um abraço p ele!!!